Evidências da neurociência sobre os efeitos positivos do bilinguismo na educação infantil

Profa. Dra. Ingrid Finger – Falar duas ou mais línguas é considerado cada vez mais importante em um mundo globalizado e multilíngue, principalmente quando se trata de idiomas de prestígio, como inglês, francês ou alemão. Muitos pais acreditam que dar a seus filhos a oportunidade de aprender outras línguas, desde cedo, seja fundamental para assegurar êxito profissional e pessoal. A expectativa é de que esse investimento no potencial das crianças funcione como uma “fórmula de sucesso”, capaz de garantir excelentes oportunidades de emprego e lazer no futuro.

Entretanto, se por um lado é grande o número de pais que se preocupam em garantir que seus filhos comecem a aprender outras línguas, desde cedo, para evitar que as crianças passem pelas dificuldades que eles tiveram, por outro, o bilinguismo ainda é um tema que gera dúvidas e apreensão, muitas delas resultantes de décadas de desinformação e preconceito.

Muitos mitos e fake news foram criados com relação aos efeitos maléficos do bilinguismo na fase infantil, que implicaria em uma possível dificuldade no aprendizado da língua-mãe ou ainda em casos de déficit de atenção. No entanto, a Neurociência tem demonstrado, na prática, que se trata de equívocos e vem desmistificando alguns desses mitos. A verdade é que, em condições normais, as crianças aprendem a falar qualquer língua sem esforço, da mesma forma como aprendem a caminhar, andar de bicicleta.

O bilinguismo infantil funciona de modo distinto do que ocorre no aprendizado de uma língua adicional na idade adulta: é um processo espontâneo que acontece naturalmente, desde que a criança possua oportunidades amplas de ouvir as duas línguas e tenha motivação suficiente para usá-las. As pesquisas comprovam ainda que os estágios de desenvolvimento da linguagem são os mesmos, no caso das crianças monolíngues e bilíngues, independentemente da condição social das famílias e da quantidade de exposição que elas possuam de suas línguas.

Crescer com mais de uma língua pode trazer uma série de vantagens linguísticas e cognitivas. Uma dessas é justamente o maior conhecimento da estrutura e funcionamento da linguagem e uma maior habilidade de, precocemente, distinguir entre forma e significado das palavras, uma capacidade denominada consciência metalinguística, que é considerada essencial para o desenvolvimento bem-sucedido da leitura e da escrita.

Isso se deve, em parte, ao fato de os bilingues fazerem uso de palavras distintas para um mesmo objeto, uma em cada língua, sendo capazes de expressar um mesmo conceito de maneiras distintas. Além disso, as crianças bilingues parecem possuir uma maior capacidade de reconhecer que as pessoas podem perceber o mundo a partir de perspectivas diferentes, devido à prática constante que possuem de escolher a língua de acordo com o contexto que estão inseridas.

Há evidência, ainda, que as crianças bilíngues demonstram ser capazes de gerenciar o controle de atenção precocemente em relação às crianças monolíngues, focando a atenção e ignorando detalhes irrelevantes com mais facilidade, mostrando ter também mais sucesso ao executar tarefas simultaneamente ou ao mudar de tarefa rapidamente, uma habilidade conhecida como flexibilidade cognitiva.

Além disso, a “mistura” de línguas, chamada de code-switching, é um fenômeno que caracteriza a fala bilíngue em todas as idades e, de forma alguma, revela aquisição incompleta das línguas. Pelo contrário, o que as pesquisas atuais comprovam é que os bilíngues fazem uso otimizado de suas línguas, sempre considerando o contexto no qual estão inseridos, usando somente uma língua sempre que necessário ou usando duas quando a interação permitir essa alternância, não trazendo efeitos negativos para a compreensão da sua mensagem.

As crianças capazes de falar mais de uma língua com fluência são consideradas muitas vezes pequenos gênios superdotados. Entretanto, sabe-se que o domínio de duas ou mais línguas não resulta em maior inteligência. O fato é que o desenvolvimento das capacidades cognitivas decorrente da aprendizagem de línguas adicionais, em qualquer idade, traz vantagens aos bilíngues em muitas situações da vida cotidiana.

As vantagens bilíngues demonstradas por meio de estudos de neurociência derivam do fato de que o cérebro bilíngue deve, constantemente, gerenciar duas línguas que estão ativas ao mesmo tempo. O cérebro de uma criança não conhece a diferença entre línguas de prestígio, línguas minoritárias ou dialetos. Como é a coexistência de mais de uma língua no cérebro que traz vantagens, o aprendizado de qualquer idioma propicia o desenvolvimento das crianças, uma vez que todas as línguas são recursos linguísticos e cognitivos, além de sociais e culturais.

Profa. Dra. Ingrid Finger é coordenadora do Laboratório de Bilinguismo e Cognição da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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