As crianças dominam o digital melhor que os adultos… será?

por Janaína Spolidorio – Muitos ficam espantados com a facilidade com a qual as crianças usam aparelhos como smartphones e tablets. Crianças que são praticamente bebês acessam o YouTube e conseguem selecionar seu vídeo favorito, por exemplo. Parece fantástico e um marco na evolução humana.

Adultos falam com orgulho das habilidades de seus filhos com os aparelhos e de como já sabem mais do que eles. O que não percebem, contudo, é que a realidade é bem ao avesso.

Quando nascemos, facilmente percebemos que ao mexer no interruptor, acendemos a luz. Pessoas que viveram antes da eletricidade e usavam lampiões, por exemplo, e tiveram filhos quando já havia luz elétrica ficavam também espantados em como os filhos se adaptavam bem ao “progresso”. É natural acharmos que é uma evolução, quando na verdade o simples fato de nascer depois que algo foi inventado já torna aquilo natural à pessoa.

De todas as invenções, contudo, nenhuma foi até agora capaz de modificar de modo tão intenso as relações humanas quanto os smartphones (e tablets).

Eles são pensados de uma forma que torna fácil seu uso por qualquer idade.

É natural que um bebê saiba mexer nele, primeiro porque quando ele nasceu, os aparelhos já existiam e segundo porque os aplicativos são feitos com um formato de layout que facilita o uso até do mais leigo. Pesquisas intensas em design de experiência do usuário (UX design) são feitas antes de qualquer aplicativo ser lançado, inclusive com bebês e idosos.

Os adultos possuem maior dificuldade no uso em relação às crianças porque suas estruturas mentais são mais desenvolvidas e também pelo fato de terem responsabilidades. Não podemos nos dedicar intensamente ao aparelho e muitos têm bloqueio com tecnologia, o que não acontece com nossos pequenos. Eles têm todo o tempo do dia para criar relações afetivas com seu aparelho e não possuem os limites de um adulto em relação às responsabilidades ou consciência de o que deve e o que não deve fazer.

A dedicação total faz com que a criança, em pouco tempo, dê a impressão de que domina o aparelho, mas é bem o contrário. Ele é feito para dominar a criança. É quase um alien, porque abduz aquele pequeno ser a participar de seu mundo, fazendo-o acreditar que ele é muito melhor do que o que ele vivencia fora da relação homem-aparelho.

A criança domina o que o aparelho quer que ela domine. Ele faz todas as suas vontades: pausa ou fecha quando ela quer, oferece novos entretenimentos quando ela precisa de algo diferente, lhe dá opções inimagináveis. Ela é a soberana de seu aparelho – ou pensa que é.

Se você pedir, contudo, algo específico ao seu filho, para fazer no aparelho, ele pode não saber. Aquilo não interessa para ele, então ele não sabe – e não quer aprender (o que é pior!).

Dominar algo é saber mexer e não mexer intuitivamente, sem objetivo, apenas para agradar a si mesmo. Dominar é usar algo com uma função para alcançar metas, para concretizar projetos e o smartphone também pode ter essas funções – e deve. Infelizmente, nós, usuários, é que não percebemos esta realidade.

Os smartphones deixam o mundo ilimitado, quando na verdade somos nós que deveríamos ser capazes de limitá-lo, dominá-lo e nunca o contrário, como vem acontecendo.

As consequências desta falta de limite no uso ajudam as crianças a serem experts em criar seu próprio mundo, mas não as ensinam coisas como empatia e laços afetivos. Elas não sabem distinguir expressões faciais e nem percebem situações que nos parecem óbvias. Elas possuem dificuldades na escola, porque o aparelho suprimiu seu desenvolvimento de atenção e concentração.

O domínio do smartphone sobre a criança é tão grande, que dá ao adulto a impressão de que seu filho está aprendendo. Se ele aprende a mexer tão fácil o aparelho, por que não aprende na escola?

A resposta está no vício. O domínio é tão imenso, que torna a criança viciada no que aquela tela brilhante, chamativa e colorida tem a oferecer.

Há, inclusive, indícios de que o efeito de alguns jogos e apps têm o mesmo poder de um shot de heroína, segundo estudos recentes feitos por médicos, em relação ao famoso jogo Fortnite, revelaram, por exemplo, que o jogo pode afetar o desenvolvimento do cérebro das crianças porque estimula a dopamina de um modo tão forte, que libera substâncias químicas similares ao vício em drogas.

Prova de que o domínio não é da criança e sim do aparelho, é que se pedir a ela para fazer uma tarefa específica e com função, ela não saberá, como enviar um e-mail ou escrever um trabalho no aparelho. Ela não saberá, porque não é a intenção do aparelho que ela saiba. A falta de consciência da própria situação é o que faz a diferença entre o dominado e o dominador.

Os adultos com discernimento conseguem usar com consciência e não sabem usar como as crianças, porque não são dominados pelo aparelho.

Cabe agora a nós, como seres pensantes, sabermos perceber este tipo de situação, com consciência, para podermos evitar ou diminuir o domínio do aparelho em relação às nossas crianças. Afinal de contas, ser dominado por um smartphone não é motivo de orgulho e sim de preocupação.


Especialista em educação, Janaína Spolidorio é formada em Letras, com pós-graduação em consciência fonológica e tecnologias aplicadas à educação e MBA em Marketing Digital. Ela atua no segmento educacional há mais de 20 anos e atualmente desenvolve materiais pedagógicos digitais que complementam o ensino dos professores em sala de aula, proporcionando uma melhor aprendizagem por parte dos alunos e atua como influenciadora digital na formação dos profissionais ligados à área de educação.

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